Genocídios Nunca Mais !

(Frente Inter-religiosa Dom Paulo Evaristo Arns por Justiça e Paz)

3 MIN LEITURA

São Paulo (Sérgio Storch)

Memória do Holocausto e a defesa dos indígenas brasileiros

A campanha visa engajar grupos inter-religiosos na construção de vínculos com aldeias indígenas, quilombolas e outras comunidades tradicionais e com suas lideranças, para fortalecer a rede de proteção contra violências, expropriações e ataques aos seus direitos. Teve início com o texto abaixo, assinado inicialmente por 36 judeus e judias no Dia de Memória das Vítimas do Holocausto, 27 de janeiro, que se ampliaram para as 100 assinaturas no dia da manifestação dos indígenas no vão do MASP, em São Paulo. Ver em (*) a história da iniciativa. 

Acompanhe na página Direitos Indígenas os próximos passos da campanha.

GENOCÍDIOS NUNCA MAIS!

Somos filhos do Holocausto. Todo ano relembramos o trauma coletivo no 27 de janeiro, Dia Internacional de Memória das Vítimas do Holocausto, ápice do horror em milênios de intolerância e perseguições.

Neste ano, ao grito mundial de “We Remember!”, precisamos somar no Brasil o de “Genocídios Nunca Mais!”.

O ciclo de desumanização que ocorre em nível mundial, e de forma singular no Brasil, nos faz lembrar também a ética judaica ancestral que o escritor Amos Oz sintetizou tão bem: “Não causar dor. Ou, pelo menos, causar menos dor” (1).

A experiência histórica nos obriga, ou pelo menos deveria nos obrigar à solidariedade para com outros povos marcados por feridas dessa natureza, ou que possam estar sujeitos a perigos, especialmente os que convivem conosco.

 
 
Também lembramos que não estivemos sozinhos. Milhares de pessoas de outros povos arriscaram suas vidas para salvar vidas de judeus, os Justos Entre as Nações, que têm os nomes eternizados nas árvores na Alameda dos Justos no Museu Yad Vashem, em Jerusalém
We Remember.
 
 
 
 
 
Lembramos dos fortes sinais aos quais a opinião pública deu pouca importância e que prenunciavam o extermínio em massa nos três fatídicos anos de 1942 a 1945. Desde a eleição alemã de 1933, foi uma escalada de hostilidade, humilhações, assédio moral e ameaças aos judeus.

Já naquele ano livros de autores judeus foram tirados dos currículos e lançados às fogueiras. Vieram as Leis de Nuremberg em 1935. Judeus foram expulsos das universidades e profissões liberais. Atrocidades contra eles e outros grupos humanos “perigosos” para a pureza da raça ariana foram naturalizadas. Mais cinco anos passaram, com lavagem cerebral do povo alemão que permitiu o linchamento coletivo na Noite dos Cristais, em 1938 (2). Decorreriam mais anos até a decisão, pela cúpula nazista, da “Solução Final” (1942), que resultou no genocídio sistematizado em escala industrial, de 6 milhões de judeus em campos de extermínio, com mais de um milhão de ciganos, comunistas e homossexuais.

Também lembramos que não estivemos sozinhos. Milhares de pessoas de outros povos arriscaram suas vidas para salvar vidas de judeus, os Justos Entre as Nações, que têm os nomes eternizados nas árvores na Alameda dos Justos no Museu Yad Vashem, em Jerusalém, entre os quais os brasileiros Aracy Guimarães Rosa e Luiz Martins de Souza Dantas, que ousaram agir seguindo sua consciência e em desacordo com o então governo brasileiro. Lembramos da força e do poder da solidariedade.

 
Precisamos saber e fazer saber que os indígenas foram o grupo humano mais vitimado pela ditadura civil-militar de 1964, com milhares de índios assassinados por pistoleiros a mando de proprietários de terras, jamais punidos
 
 
 
 
 
 
 
Lembramos e, ao mesmo tempo, vemos hoje no Brasil os sinais que não soubemos ver na Alemanha. São nuvens pesadas sobre os grupos humanos mais vulneráveis, como nós éramos na Alemanha e na Polônia. A intolerância religiosa de parte de fundamentalistas e as ameaças explícitas e atos de governo lesivos aos direitos assegurados aos povos originários pela Constituição Federal nos fazem lembrar, além do genocídio que nos vitimou, outros genocídios cruéis que mancham a História brasileira: a escravidão dos africanos e o perpetrado contra os povos originários do Brasil por quase quinhentos anos, em que povos, aldeias e comunidades indígenas foram atacadas. Milhões foram exterminados e expulsos de suas terras, forçados ou convencidos a abandonar suas crenças e culturas e tiveram negados seus direitos como seres humanos. Precisamos saber e fazer saber que os indígenas foram o grupo humano mais vitimado pela ditadura civil-militar de 1964, com ao menos 8.350 índios assassinados (3), dos quais os historiadores um dia dirão quantos foram mortos por pistoleiros a mando de proprietários de terras jamais punidos.

Violências têm vítimas e atores, visíveis ou invisíveis. Na Alemanha fomos vítimas invisíveis e nossos algozes gozavam de impunidade. Com a invisibilização decorrente da fragmentação dos noticiários e da curta memória nacional, poucos hoje sabem sobre a responsabilidade de jovens de classe média de Brasília, gente como nós, dois deles filhos de magistrados, que há 21 anos atearam fogo ao índio Galdino Pataxó (4).

 
 
Não podemos silenciar diante das medidas e intenções de violar direitos constitucionais e ameaçar a integridade cultural e territorial dos povos indígenas, que compõem grande parte da preciosa diversidade humana de nossa Pátria
 
 
 
 
Destruições de casas e plantações de indígenas são cometidas hoje sem qualquer imputação criminal a seus autores. Lideranças indígenas vêm sendo trucidadas para a tomada de suas terras. Uma ofensiva contra suas terras e os recursos naturais que contêm está orquestrada no Congresso Nacional e no Palácio do Planalto. Madeireiros, garimpeiros, latifundiários invadem, saqueiam, destroem, ameaçam e matam impunemente e se organizam para que estas atrocidades se tornem legais, sancionadas pelo Estado Brasileiro, como o foram na Alemanha nazista.

A vida e a dignidade de todos têm igual valor.

Não podemos silenciar diante das medidas e intenções de violar direitos constitucionais e ameaçar a integridade cultural e territorial dos povos indígenas, que com suas 305 etnias compõem grande parte da preciosa diversidade humana de nossa Pátria e de seu precioso patrimônio cultural. Os atos iniciais do novo governo, como a Medida Provisória que reorganiza os ministérios, desvincula a Fundação Nacional do Índio – FUNAI do Ministério da Justiça e transfere a demarcação de territórios indígenas para a responsabilidade de ruralistas, e o anúncio de intenções de abrir os territórios indígenas para atividades de mineração e agricultura, entre outros fatos, nos motivam a, nesse dia que nos é sagrado, alertar os brasileiros e a opinião pública mundial sobre a escalada crescente de violências contra os Povos Indígenas no Brasil. A extinção do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional – CONSEA, pode agravar essa já delicada situação.

 
 
Conclamamos nossos correligionários e integrantes de outras religiões e grupos étnicos para construirmos um movimento de solidariedade em apoio aos indígenas e os demais povos e comunidades tradicionais
 

Nesse dia que nos pede contrição, reverência e compromisso, o melhor tributo às vítimas do Holocausto e o melhor reconhecimento aos Justos de todos os povos está em afirmar que todos somos responsáveis!

Lembrando o sábio Hillel (séc.I antes da Era Comum): “Se eu não for por mim, quem será? E se não agora, então quando? E se eu for só por mim, quem sou eu?” (5), conclamamos nossos correligionários e integrantes de outras religiões e grupos étnicos para construirmos um movimento de solidariedade em apoio aos indígenas e os demais povos e comunidades tradicionais, monitorando, denúnciando crimes, invasões de terras, ameaças, esvaziamento de instituições e formas de proteção e na busca por proteção nacional e internacional de seus direitos.

Declaramos aqui nossa determinação de fortalecer os vínculos entre brasileiros, dando a mão aos Povos Indígenas, quilombolas e outras comunidades ameaçadas, empoderando pela construção, semana a semana, de uma rede de solidariedade e conexão pessoa a pessoa, aldeia por aldeia, família por família, Povo a Povo!

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(*)  HISTÓRICO E PRÓXIMOS PASSOS DA CAMPANHA 

Esse texto, originalmente com 36 (*) assinaturas de judeus e judias, no Dia de Memória das Vítimas do Holocausto (27 de janeiro) foi proposto à Frente Dom Paulo por Cláudia Visone (Bancada Ativista), Rubens Harry Born (www.350.org) e Sérgio Storch (cofundador da Frente Dom Paulo), e aprovada pelo comitê de lideranças religiosas para a programação da Frente Dom Paulo para a Semana de Combate à Intolerância Religiosa.

Ampliou-se com a incorporação dos mais diversos grupos sociais, simbolizados pelas assinaturas de apoio conquistadas ao longo das atividades da semana.  Com sua apresentação com bloco de 100 assinaturas na manifestação do movimento pelos direitos dos indígenas no dia 31 de janeiro, ela passa para outro estágio.

Os signatários (e os que vierem a assinar posteriormente) serão convidados a se integrarem a um programa permanente de ações.

 

A campanha se desenvolverá com comunicação nacional e internacional, e a visitação regular a aldeias indígenas e quilombolas, nas várias regiões, para fortalecimento de vínculos, através de grupos de composição inter-religiosa que desenvolverão relações de apoio e solidariedade aldeia por aldeia, família por família, e que atrairão para o programa, de forma contínua, os seus amigos e amigas nas respectivas congregações, religiões e ambientes de convivência.

A organização será em comitê de coordenação formado pela Frente Dom Paulo e as demais organizações que desejarem fazer parte do planejamento e gestão.

Desde o início a campanha  terá interação constante, em cada região, com a APIB – Articulação dos Povos Indígenas do Brasil e o CIMI – Conselho Indigenista Missionário,  e conexões internacionais através das redes trazidas pelos signatários da campanha, para dar visibilidade internacional às violências e ações de defesa, e contar com a solidariedade internacional da mídia, de governos e das organizações de defesa dos direitos humanos.

A Frente Dom Paulo dedicará uma área do seu site e criará grupos e modelo organizacional, usando todas as mídias sociais, para a informação e comunicação com todos que desejarem se somar à campanha, e para envolvimento de cada integrante de acordo com suas vocações, competências e disponibilidades.

Esta campanha será também uma forma de fortalecer o vínculo com nossa História, através de atividades culturais e educacionais, e de promover a causa geral da defesa da Declaração Universal dos Direitos Humanos e da Constituição Cidadã de 1988.

(*) SOBRE O USO DO SÍMBOLO 36 NA CAMPANHA 

No estágio zero da campanha foi definido o número das primeiras 36 assinaturas de judeus e judias, em vista do significado desse número no judaísmo.

Trata-se da lenda dos “Justos entre os Povos”, que são as pessoas cuja dignidade e integridade justificam para a divindade a continuação da Humanidade. 

O nome “Justos entre os Povos” é adotado também pelo Museu do Holocausto Yad Vashem para homenagear, com árvores em seus nomes na Alameda dos Justos, aqueles que, sem serem parte do povo judeu, arriscaram suas vidas ao salvarem vidas de judeus durante aquele que foi o genocídio mais característico da modernidade, cometido de forma racional e com uso maligno da ciência e métodos de trabalho que o Iluminismo acreditara que seriam o caminho de progresso da Humanidade.

Os Justos entre os Povos incluem brasileiros que dignificam a História do Brasil, e nos encorajam a seguir seus passos, como Aracy de Carvalho Guimarães Rosa e o embaixador Luiz Martins de Souza Dantas, que honra o nosso Itamaraty.

O número 36 será novamente utilizado nos estágios iniciais da formação de círculos em cada uma das vertentes profissionais que buscaremos integrar na campanha de forma inter-regional: cineastas, escritores, antropólogos, músicos etc.

Para visualizar a página de Direitos Indígenas, clique aqui

Frente Dom Paulo

Redação Frente Dom Paulo

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