Problemas ambientais ameaçam a humanidade toda,
mas atingem de forma mais rápida e cruel os pobres.

 

Há 70 anos, quando a Declaração Universal dos Direitos Humanos foi lançada, não estavam no horizonte das preocupações da humanidade as mudanças climáticas, o esgotamento das fontes de água, a contaminação química não proveniente de conflitos armados, o lixo plástico ameaçando a vida nos oceanos e outros desastres ecológicos com os quais estamos nos confrontando.

Olhando para a realidade da população brasileira, é fácil notar que são as comunidades carentes de recursos financeiros que mais sofrem com a degradação do meio ambiente

Tudo isso fere direitos humanos básicos, como acesso a água potável, alimentação e moradia adequadas. De acordo com a Organização das Nações Unidas, 3 em cada 10 pessoas no mundo não têm acesso à água limpa, ou seja, cerca de 2,1 bilhões de pessoas. E 6 em cada 10 não têm acesso ao saneamento. Essas estão entre as principais causas de mortalidade infantil. Todos os anos 361 mil crianças de 0 a 5 anos morrem de diarreia no mundo.*

Problemas ambientais ameaçam a humanidade toda, mas atingem de forma mais rápida e cruel os pobres. Olhando para a realidade da população brasileira, é fácil notar que são as comunidades carentes de recursos financeiros que mais sofrem com a degradação do meio ambiente. Alguns exemplos:

O dinheiro compra os melhores locais

1) O dinheiro compra os melhores locais – Num mundo em que tudo tem seu preço, as zonas de boa qualidade ambiental são mais caras. O outro lado da moeda é que, não por acaso, sobram para os mais pobres as moradias em locais poluídos, sem saneamento, com falhas no abastecimento de água, coleta de lixo insuficiente, sujeitos a inundações e deslizamentos. 

2) A degradação extermina serviços ambientais gratuitos – Onde a natureza ainda está razoavelmente intocada, seus recursos tendem a ser de livre acesso. E são o sustento de comunidades de ribeirinhos, caiçaras, quilombolas, indígenas, caboclos. Cada quilômetro de rio limpo alimenta diversas famílias. Quando a contaminação avança, a subsistência inevitavelmente se mercantilizada. Comer e beber passam a depender do dinheiro.

3) Comida saudável não é acessível a todos – Frutas, verduras e legumes in natura são perecíveis, exigindo logística de transporte e distribuição mais sofisticadas. Por esse motivo se tornaram mais caros do que os produtos alimentícios ultraprocessados. A comida industrializada de baixo custo tem poucos nutrientes e altas doses de açúcar, sal e gordura de má qualidade. Seu consumo cotidiano gera doenças.

4) As profissões insalubres eternizam as injustiças – No campo e nas cidades, o contato com substâncias contaminantes está atrelado a atividades de baixa remuneração, reforçando o ciclo da doença e da pobreza. São os agricultores familiares e assalariados rurais, por exemplo, que lidam diretamente com os agrotóxicos. São os frentistas de postos de gasolina que ficam expostos ao benzeno cotidianamente.

Ativistas ambientais e os que combatem as injustiças sociais têm diante de si um mar de pautas em comum e chegou o momento de aprendermos a remar juntos. 

* Dados do relatório Progress on Drinking Water, Sanitation and Hygiene: 2017 Update and Sustainable Development Goal Baselines (https://www.unicef.org/publications/files/Progress_on_Drinking_Water_Sanitation_and_Hygiene_2017.pdf) 

Cláudia Visoni

Cláudia Visoni

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Claudia Visoni é jornalista formada pela ECA – Escola de Comunicações e Artes da USP, agricultora urbana e  conselheira do Conselho de Meio Ambiente, Desenvolvimento Sustentável e Cultura de Paz da Subprefeitura de Pinheiros. Trabalha ainda como voluntária nas hortas comunitárias das Corujas (Vila Madalena) e do Ciclista (Avenida Paulista).